
Despertar Religioso: Quando e onde “nasce” a fé?
"As crianças entram na catequese por volta dos seus 6/7 anos de idade. Nessa altura integram o primeiro ano de catequese nas suas paróquias e começam, formalmente, a sua caminhada pessoal de encontro com Cristo e de relação com o Pai. É um marco muito importante para a vida das crianças e, espera-se, que das famílias também. Porém, face a este “acontecimento” várias questões se colocam: «Será que é só nesta idade que a criança está preparada para descobrir a fé?»
«Será que os seis primeiros anos de vida significam um vazio espiritual na vida da criança?» E mais: «Será que o desenvolvimento espiritual e a educação religiosa são a mesma coisa?», «Será que uma dimensão vive sem a outra?» … Estas e outras questões têm estado “sobre a mesa” ao longo deste dois dias de trabalho (19 e 26 de outubro) no âmbito da formação “O Despertar Religioso”, e irá continuar em novembro (nos dias 9 e 23).
À medida que os dias de formação vão passando o número de elementos a participar nestes encontros tem vindo a aumentar. Este facto permite-nos inferir sobre o interesse que algumas pessoas da nossa Diocese têm sobre esta temática. Parece ser um assunto que interessa não só a educadores de infância, professores, auxiliares de ação educativa mas, também, a enfermeiros, psicólogos, catequistas, pais. Nota-se a curiosidade das pessoas em compreender o que é a educação espiritual e religiosa até aos 6 anos de idade. E é este o objetivo desta formação – levar as pessoas a uma compreensão e reflexão destes conceitos, consciencializando-nos das implicações das nossas ações diárias, ao nível profissional e pessoal, para o desenvolvimento da(s) criança(s) a este nível.
Estes dois dias de formação já nos permitiram aprender que os seis primeiros anos de vida são essenciais para o desenvolvimento da espiritualidade humana e para o início da educação religiosa. Todo o ser humano é um ser espiritual desde o seu nascimento, desde os seus primeiros dias de vida. Se pensarmos num bebé que acaba de nascer verificamos que ele procura o outro com o seu olhar e, ao mesmo tempo, confia nesse outro (mãe, pai e/ou outro cuidador) numa confiança sem medida. Esta nossa dimensão espiritual, que faz parte da nossa essência enquanto seres humanos, assenta em quatro componentes: a reflexividade (pensar sobre as coisas de forma consciente);a capacidade simbólica (forma de o ser humano comunicar e comunicar-se); a procura de sentido e de transcendência (dar sentido ao que fazemos); e, a capacidade oblativa (dar de si aos outros). Sendo esta, a espiritualidade, uma dimensão humana importa que ela seja desenvolvida em toda a sua plenitude ao longo da infância. Contudo, isto não significa que estejamos a fazer uma educação religiosa. Desenvolvimento espiritual e a educação religiosa são dois conceitos diferentes, apesar da sua relação íntima. A dimensão espiritual é, como anteriormente dissemos, uma dimensão humana que se desenvolve como as restantes dimensões do desenvolvimento humano (dimensões cognitiva, motor, afetiva, social). A dimensão religiosa, por sua vez, é uma opção das pessoas, uma escolha que se faz, mas que depende da dimensão humana espiritual.
As reflexões nestes encontros continuaram e levaram-nos a um “olhar” sobre como é que, no nosso dia-a-dia, se pode ir cultivando a espiritualidade da criança. Percebemos que há formas ao nosso alcance que poderão fazer a diferença numa sociedade que, atualmente, apela pouco à interioridade. Atribuir significados às vivências, promover o silêncio, aprender a estar só (sem significar estar sozinho), vivenciar relações com sentido e significado, saber esperar com confiança, alegrar-se pela alegria dos outros, agradecer, cultivar a generosidade… são alguns dos muitos exemplos apresentados e que podem ajudar o desenvolvimento da dimensão espiritual da criança. Mais tarde a criança, no seu trajeto de fé, passará do confiar ao acreditar, e mais tarde, na adolescência, o acreditar dará lugar à convicção.
Ainda mais dois encontros nos esperam. Mais aprendizagem e partilha de experiências ocorrerão. Para já, sente-se que há muito a fazer nos primeiros anos de vida da criança para as apoiar no seu desenvolvimento espiritual. Este trabalho, não está confinado aos educadores de infância/professores e outros profissionais de educação, é acima de tudo um trabalho da responsabilidade de todos que, no dia-a-dia, contactam com as crianças (sejam pais, avós, outros familiares e profissionais). O despertar religioso não começa só aos 6 anos, quando a criança ingressa na catequese lá da paróquia, começa logo a partir do seu primeiro dia de vida.
Sónia Correia
Docente da Esc Sup de Educ e Ciências Sociais do Instituto Politécnico de Leiria



